Na CPI, Fakhoury repete negacionismo e mentiras de Bolsonaro sobre máscaras e vacinas

O empresário disse se tratar de ‘opinião’. ‘Quando a sua opinião compromete a vida de todos, não é liberdade’, reagiu Randolfe Rodrigues

foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O empresário bolsonarista Otávio Fakhoury endossou seu negacionismo em depoimento à CPI da Covid nesta quinta-feira 30. Aos senadores, confirmou que ele e os familiares não se vacinaram, sob supostos argumentos já utilizados pelo presidente Jair Bolsonaro.

Fakhoury, apontado por membros da comissão como um dos financiadores de fake news e apoiadores de atos antidemocráticos, tentou colocar em xeque a importância das máscaras e dos imunizantes e defendeu remédios ineficazes contra a Covid-19. Ele também é investigado no Inquérito das Fake News pelo Supremo Tribunal Federal.

“Elas [vacinas] têm que ser adquiridas e oferecidas pelo governo, mas ainda hoje se encontram em estágio experimental. Não devem ser obrigatórias. Para minha família, pessoalmente, espero o término dos testes para decidir se imunizo ou não”, disse Fakhoury.

Não é verdade. Todos os imunizantes aplicados no Brasil passaram por testes e receberam autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária após comprovação de sua eficácia e de sua segurança.

O discurso se assemelha ao de Jair Bolsonaro, que insiste na divulgação de notícias falsas sobre as vacinas, as máscaras e as medidas de distanciamento social. Em 16 de setembro, logo depois de retornar da 76ª Assembleia das Nações Unidas, em Nova York, o ex-capitão utilizou uma transmissão ao vivo nas redes sociais para mentir sobre os imunizantes, em especial a Coronavac, produzida no Brasil pelo Instituto Butantan, de São Paulo.

“Eu estou melhor, no tocante à imunização, do que todo mundo que tomou Coronavac. Explica isso aí”, alegou, na ocasião, ao exaltar o fato de não ter se vacinado. “Coronavac tem registro emergencial, não tem comprovação científica”.

Fakhoury, a exemplo de Bolsonaro, prega contra as máscaras. Senadores reagiram, durante o depoimento, à afirmação do empresário de que sua participação em um vídeo contra o equipamento de segurança seria questão de “opinião”.

O vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), rebateu: “Isso não é liberdade de opinião. Quando a sua opinião compromete a saúde de todos, isso não é liberdade de opinião. Isso é crime.”

“Liberdade de opinião é eu torcer para o Flamengo, o senador Tasso [Jereissati] torcer para o Ceará. Liberdade de opinião é alguém ser de esquerda, alguém ser de direita. Isso é liberdade de opinião. Quando a sua opinião compromete a vida de todos, isso não é liberdade de opinião, não”, acrescentou Randolfe.

As alegações de Fakhoury encontram eco em discursos de Bolsonaro, que, desde o início da pandemia, debocha da importância do uso de máscaras. Recentemente, ampliou a pressão sobre o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para afrouxar as regras de utilização do equipamento. Conforme declaração de Queiroga em 16 de setembro, a ofensiva do ex-capitão surtiu efeito.

“Em breve, nós teremos essa desobrigação de usar máscaras. Quem quer usar máscaras, usa. Mas essa mania de querer criar lei para tudo… Daqui a pouco tem uma lei para obrigar as crianças irem para a escola vacinadas. Não precisa de vacina para ir para a escola”, disse o ministro em live ao lado do presidente.

Financiamento de materiais de campanha

Fakhoury admitiu no depoimento ter financiado a impressão de materiais durante a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência, em 2018. De acordo com o empresário, a publicidade foi impressa por grupos independentes e não estava diretamente vinculada à campanha do candidato.

O relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), apontou que a Polícia Federal encontrou notas fiscais emitidas por duas gráficas do Nordeste com a impressão de 560 mil itens de propaganda eleitoral para Bolsonaro sem declaração à Justiça Eleitoral.

Além da campanha, Fakhoury declarou ter apoiado o financiamento de manifestações pró-impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff e, em 2019, endossado grupos que foram à Avenida Paulista, em São Paulo, por pautas ligadas ao governo de Bolsonaro, como a Reforma da Previdência. Ele negou ter colaborado financeiramente com as manifestações do último 7 de Setembro.

Contarato reage

O senador Fabiano Contarato (Rede-ES) exigiu um pedido de desculpas de Fakhoury por ofensas homofóbicas. A CPI decidiu acionar a Polícia do Senado e o Ministério Público para apurar a prática de crime de homofobia pelo empresário.

Em maio deste ano, Contarato publicou uma mensagem no Twitter na qual cobrava a prisão do ex-secretário de comunicação do governo Bolsonaro Fabio Wajngarten e errou a grafia da palavra “flagrancial”, escrevendo que havia “estado fragrancial configurado.

Fakhoury republicou a mensagem de Contarato com uma ofensa ao parlamentar em função de sua orientação sexual. “O delegado, homossexual assumido, talvez estivesse pensando no perfume de alguma pessoa ali daquele plenário… Quem seria o “perfumado” que lhe cativou?”, escreveu.

Nesta quinta-feira, Contarato assumiu a presidência da reunião da CPI e exigiu um pedido de desculpas do empresário à comunidade LGBTQIA+. “Dinheiro não compra dignidade. A sua família não é melhor que a minha”, disse o senador. “Se o senhor faz isso comigo, como senador, imagina no Brasil, que é o país que mais mata a população LGBTQIA+?”

Fabiano Contarato é o primeiro político assumidamente homossexual a ser eleito para o Senado no País. “Essa dor é incomensurável, não tem dinheiro que pague isso. Estou expondo meu esposo, meus filhos,minha família, para que outras pessoas não tenham que passar pelo mesmo”.

Via Carta Capital

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *