Como governar um país tão desigual? ‘Governando’, diz Lula a Thelminha e Gil do Vigor

Ex-presidente participou do programa Triangulando da campeã do BBB20, ao lado de Gil do Vigor, Linn da Quebrada e Celso Athaíde

Foto: Ricardo Stuckert

Debater a desigualdade social no Brasil com quem sentiu, na pele, as dores da desigualdade foi o assunto do Triangulando, programa de entrevistas comandado por Thelminha Assis, nesta quarta-feira (1º). Thelminha, campeã do BBB20, reuniu em seu canal no YouTube o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a cantora, atriz e ativista Linn da Quebrada, o fundador da Central Única das Favelas (Cufa), Celso Athayde. Gil do Vigor, participante da edição de 2021 do Big Brother Brasil falou dos Estados Unidos, onde faz pós-doutorado em Economia na Universidade da Califórnia.

Negra e de origem humilde, Thelminha formou-se médica na PUC de São Paulo graças ao Prouni, programa criado no governo Lula. Assim como Gil do Vigor alcançou a universidade pública por meio da lei de cotas, programa de inclusão também impulsionado no governo do petista. Não por acaso, a educação foi apontada durante o Triangulando como a principal solução para a desigualdade social.

Thelminha mencionou números como os 44% de brasileiros que vivem com renda mensal abaixo de R$ 255, enquanto 1% da população detém cerca de metade da riqueza do país. “O Brasil está entre os 10 países mais desiguais do mundo. Como governar um país tão desigual?”, perguntou Thelminha a Lula. “Governando”, resumiu o ex-presidente, lembrando que fruto de um governo que governava, em 2014 o Brasil tinha saído do Mapa da Fome da ONU, por força de programas sociais como o Bolsa Família, mas também via política de aumento do salário mínimo, criação de empregos.

“Resolvemos os problemas com sacrifício, compreensão da sociedade brasileira e muita solidariedade. Sei que é muito triste (a situação atual do Brasil), mas é possível consertar. A solução começa colocando o pobre no orçamento da União, dos estados, dos municípios. E o rico no imposto de renda.”

Pátria educadora

Em resposta a uma enquete feita durante o programa, 82,2% afirmaram que a sociedade brasileira não está interessada em acabar com a desigualdade. Mas, para governar bem o país, afirmou Lula, é preciso usar o método de uma mãe que tem muitos filhos. Ou seja, dar mais atenção ao “mais fraquinho”, que precisa um pouco mais de tudo. “Assim, tem de governar com a cabeça e com o coração. O Estado tem de funcionar para ajudar os mais pobres”, afirmou o líder das pesquisas eleitorais para 2022. Lula lembrou as 74 conferências nacionais realizadas para discutir propostas de políticas públicas. “Para governar o país tem de priorizar os mais pobres. Mas hoje foram esquecidos.”

Num programa em que pelo menos metade dos participantes teve a vida transformada pela educação, Lula destacou que em seu governo era proibido falar em “gasto” quando se discutia o assunto. “É investimento na nação. Por isso fizemos, nem sempre reconhecidos, mas hoje qualquer documento internacional vai provar que o Brasil viveu um período extraordinário de desenvolvimento. Não é possível acreditar que o Brasil pode ser governado para 35%. Só é possível resolver o Brasil se fizer com que as pessoas tenham direito de morar, comer três vezes por dia, chegar à universidade.”

Carro ou geladeira

Thelminha falou a Lula sobre a trágica multiplicação do número de pessoas que vivem nas ruas, enquanto Celso Athayde lembrou que viveu assim por seis anos, antes de ir morar em uma favela, o que foi um “upgrade”. “Hoje existem famílias inteiras migrando pras ruas. Isso é fruto de um caos estabelecido, desdobramento da pandemia, mas também da forma como a gente está olhando para esse momento. Isolamento social sempre existiu para o favelado. Nasceram isolados socialmente, viveram e morreram socialmente isolados. Dividimos os medos e as consequências dessas fraturas.”

Para Athayde, a maior crise no Brasil não é a da pandemia, mas a da falta de perspectiva. “Não podemos ter de escolher a barbárie”, disse, explicando que quem não tem perspectiva pode não querer roubar carro, mas entrar na casa e roubar a geladeira para comer o danone da criança. “Essas pessoas estão nessa situação por estar alijadas de qualquer processo de emancipação, de prosperidade. Hoje mais de 20 milhões de pessoas não têm condição de se alimentar. Uma tragédia anunciada.”

Sobre a ajuda que tem chegado às favelas e às pessoas em situação de rua, Celso Athayde reconheceu a importância dessas ações, mas avisou. “As pessoas estão se agarrando na tábua de salvação, mas continuam no mar, na água fria. Quando passar essa fase, não podemos permitir que as pessoas fiquem na boia de salvação. Como trazer para o navio e compartilhar os benefícios e conquistas? Favelas produzem R$ 119 bi por ano. Ou dividimos isso ou vamos dividir as consequências da tragédia.”

Linn da Quebrada falou dos obstáculos e como os superou para “encarar o mundo”. “Foi no encontro com a quebra, na quebrada que pude montar um mosaico de forças”, disse, mencionando o Periferia Preta, formado na Favela da Juta. “Aprendi a ser forte na periferia e que meus movimentos poderiam me deslocar e provocar um deslocamento de todas nós, grupos minorizados, marginalizados. Quando a gente consegue fazer esse deslocamento, o ponto de vista e as forças se movem com a gente.”

Gil do Vigor agradeceu o presidente Lula. “Estudei em escola pública, vim do sistema de cotas. Quando você pega um dinheirinho e dá para o pobre, ele vai consumir, vai fazer a economia girar, conceito básico da economia. Quem recebe milhões não vai necessariamente colocar na economia para girar. Quem compra comida, faz girar a economia e isso vai repercutir no geral. As pessoas tampam a visão do que é obvio”, destacou. “Se eu tivesse ficado ao léu, não estaria em Davis fazendo esse PHD. Sou muito grato ao governo do presidente Lula, porque sei o que foi aquela ajuda lá atrás. Como é que a gente vai competir, era uma competição injusta. Educação não se resolve do dia para a noite. Eu e outros amigos só conseguimos ingressar na universidade pública graças ao sistema de cotas.”

 economista celebridade fez coro ao ex-presidente. “Tem de pensar onde colocar recursos de forma eficiente, não tem dinheiro pra tudo. Não existe possibilidade de cortar na educação. E na saúde. Isso é o básico. Não pode tirar do que a gente precisa para evoluir.”

Papel do Estado

Thelminha também falou sobre a oportunidade que recebeu para estudar Medicina na PUC. “Como o senhor se sente sabendo que há 3 milhões de universitários que se beneficiaram do Prouni? E o que fazer com as pessoas que ainda estão sendo oprimidas pela sociedade que não permite que elas avancem?”, perguntou a Lula.

“Eu que fico gratificado e emocionado de ver vocês chegarem onde chegaram. O papel do Estado é abrir a porta. Fui o primeiro filho de uma mãe com oito filhos a ter um diploma primário, ter curso técnico, comprar carro, geladeira. Educação é uma obsessão para mim”, lembrou o ex-presidente. “Sei que quando uma pessoa pobre entra numa universidade particular sofre preconceito, as pessoas ficam com ciúme. Mas deveriam ter orgulho.”

Lula lamentou tudo que o Brasil vem perdendo. “Agora, muita gente formada não tem perspectiva de trabalhar porque a economia está atrofiada. Jogaram fora tudo que foi construído desde 1943 até agora. Derrubaram a Dilma (ex-presidente Dilma Rousseff) e tudo piorou nesse país”, cravou. “Se forma e volte para cá”, pediu Lula a Gil. “O Brasil não tá lascado, o governo quer lascar o país. Tenho certeza que o que sua família mais queria era te dar o direito de estudar.”

A apresentadora do Triangulando lembrou o preconceito que sofreu. “Eu não estudava de graça, meus pais sempre pagaram impostos”, disse criticando a visão que a elite tem de que está fazendo um favor. “Muita gente fala que os programas sociais são compra de voto. Mas são essas outras classes sociais não querem tirar a gente desse círculo vicioso.”

Educação liberta

O ex-presidente Lula fez questão de lembrar que não foi seu governo que criou o programa de financiamento estudantil, o Fies. “Só que antes precisava de avalista. Tomei a decisão de que o Estado ia financiar. Se a gente financiava empresário, porque não podia financiar os estudantes. E 2,5 milhões pegaram (o financiamento) para estudar. Isso garante a soberania de uma nação.”

Para o líder petista, no entanto, toda vez que o Brasil começa a crescer “vem alguém e dá uma rasteira, um golpe nesse país”. Com isso, elencou, a massa salarial caiu, a renda dos mais pobres e o poder de consumo também. “E uma minoria ficou mais rica com a crise. O país está desconsertado, é a verdade nua e crua. Veja o funcionamento do Congresso Nacional. Tudo que fazem é para piorar a vida dos trabalhadores”, disse, criticando as privatizações das estatais brasileiras. “Como se os empresários fossem santos e o Estado não prestasse. Não tem país desenvolvido sem ter investido na educação.”

Gil aplaudiu. “Através da educação vamos ser libertos. O conhecimento nos torna capazes de analisar e escolher o que é certo. Quem tem um governo de verdade vai investir em educação, não tem medo do povo.” Thelminha emendou: “Além de nos tornar ignorantes querem oprimir nosso direito de falar”, disse, sobre os ataques à democracia.

“Se a verdade nos libertará, é porque produziremos nossas verdades, nossos conhecimentos”, ressaltou Linn da Quebrada. “Nem todos vão conseguir acesso à educação, os pilares da nossa sociedade trabalham com exclusão. Esse sistema faz com que algumas de nós alcancemos, mas não há garantia de autonomia e antecipação. Não é sobre ajuda. É preciso que a gente quebre esse ciclo. Precisamos ter acesso a humanidade.”

Gil lembrou que o país dos tempos dos governos petistas estava “vigorando”, as perspectivas eram enormes. “O Brasil tá lascado, mas não precisa. A gente vai regozijar. O Brasil é um país maravilhoso, incrível. Economia é alegria. Nosso Brasil começou a andar e se regozijar com o básico, a partir da educação”, reforçou.

Celso Athayde disse que falar de cotas parece que é um favor. “Reparação também fica esquisito porque as pessoas acham que não fizeram nada contra ninguém. Mas vivemos num país de modelo escravocrata. A política racista era uma política de governo, ou seja, o Estado precisa pagar pela anomalia que causou.

O programa, que chegou ao terceiro lugar nas menções no Twitter Brasil e sexto no mundo, tratou também da pandemia da covid-19. Thelminha lembrou que o governo de Jair Bolsonaro cortou R$ 2 bi para saúde. “Vamos ter demanda reprimida imensa no pós pandemia. Sequelas, cirurgias eletivas adiadas, doenças que deixaram de ser diagnosticadas. Como valorizar o SUS daqui para frente?”, perguntou a médica ao ex-presidente Lula.

“Espero que a sociedade brasileira e parte dos meios de comunicação sejam mais verdadeiros com o SUS. Desde que foi criado em 1988 foi tripudiado pelos planos de saúde. Em 2007, o Congresso Nacional tirou R$ 40 bi do sistema de saúde. E não tem saúde barata, precisa contratar mais médicos, abrir salas, fazer hospitais. O que não pode é o que estamos vendo na CPI da Covid: roubaram e prejudicaram a sociedade”, disse.

Graças ao SUS

Para Lula, se o governo federal tivesse feito o “previsível”, o país estaria muito melhor no combate à covid-19. “Era uma doença nova, criaria um comitê de crise, juntaria cientistas, secretários de saúde, para fazer um protocolo e orientar a nação, comprar vacina”, explicou. “Mas ele (Jair Bolsonaro) negou a seriedade, receitou remédio que não tinha nada a ver, tripudiou de quem usava máscara e não fazia aglomeração.”

O petista falou ainda sobre a importância que o programa Mais Médicos teria agora. “Mandaram embora 12 mil que poderiam estar ajudando. Covid tratado de forma antecipada poderia ter evitado muita coisa. Se as pessoas seguissem um protocolo que a gente não teve. Espero que a sociedade brasileira se dê conta que precisamos de um sistema de saúde universal para todas as pessoas”, disse, agradecendo ao SUS e aos profissionais de saúde. “Graças ao bom Deus a gente tinha o SUS. Se não tivéssemos, o Brasil estava lascado, muito mais do que está agora e por pura irresponsabilidade.”

Com conhecimento de causa, Lula destacou a necessidade de se criar condição para o povo pobre ter saúde de qualidade. “Se eu não fosse um peão de fábrica, não teriam arrancado meu dedo inteiro. Desigualdade não é só no salario, é na saúde, na cultura, na comida. Não gostaria de estar aqui criticando o governo, mas foi tudo errado.”

Via Rede Brasil Atual

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