O Magnífico Guarda da Esquina

André Maurício Conceição de Souza, professor e ex-vice-reitor da Universidade Federa de Sergipe – UFS

“Presidente, o problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país; o problema é o guarda da esquina” (Pedro Aleixo em 1968, vice-presidente civil do general Costa e Silva, sobre o Ato Institucional n. 5, AI-5)
Quando o ex-reitor Ângelo Antoniolli se usou da autonomia universitária para negar o uso do sistema de votação eletrônica para que fosse realizada a eleição de escolha do futuro reitor pela comunidade universitária, não apenas estava determinado a quebrar um dos pilares da democracia para manter seu grupo no poder, mas também serviu de exemplo para pessoas que entendem que a democracia apenas existe enquanto lhes possa ser favorável. O ex-reitor foi exemplo único no Brasil. A UFS foi a única universidade pública que teve um reitor nomeado sem apresentar uma única linha de proposta e sem sequer lançar-se candidato e submeter-se ao crivo da comunidade.
Como esperar que a destruição dos processos democráticos parasse por aí? Óbvio que não. Se a escolha do maior dirigente da universidade, o chamado magnífico reitor, foi ilegítima, o que esperar da escolha de diretores dos centros acadêmicos da UFS? Pois bem, a ética foi para a lata do lixo no Centro de Educação e Ciências Humanas (CECH) e no Centro de Ciências Agrárias Aplicadas (CCAA).
Seus atuais diretores não aceitaram a derrota nas urnas. Com a derrota dos seus candidatos, demonstraram a total perda dos princípios democráticos. O golpe veio na escolha da lista tríplice a ser encaminhada ao reitor: destaca-se que as eleições ocorreram pelo uso do sistema de votação eletrônica na comunidade, mas o resultado dessa votação não foi respeitado pelos colégios eleitorais dos dois centros – CECH e CCAA.
Quando o atual reitor Valter Joviniano aceitou o papel de dar um nome para, sem legitimidade da comunidade universitária, ser escolhido na condição de reitor, através de uma eleição indireta por um colégio eleitoral, manipulado, como um jogo de regras e cartas dadas por seu mentor, o ex-reitor Antoniolli, não apenas prestou a ser mais um nome na lista de escolhidos em processos antidemocráticos, como também serviu de exemplo para alguns colegas de universidade que concebem a democracia apenas como um detalhe insignificante.
Colegas que perderam as eleições na comunidade nos dois referentes centros, coniventes, assumem o exemplo do “atual magnífico”. Em suma, perderam a vergonha. Se são favorecidos pela democracia, a defendem; se não são, criam as mais estapafúrdias justificativas para não aceitar a derrota nas urnas. A história tem tantos exemplos dessa forma de agir, que temos um nome para estas pessoas: golpistas.
Neste momento estamos à espera de um “magnífico”, que deverá decidir quem irá dirigir os centros acadêmicos da nossa universidade. Estamos submetidos à espera de uma decisão monolítica característica de um sistema absolutista, sem direito sequer de questionamentos, uma vez que “está na lei”! É importante lembrar que o AI-5 foi uma lei.
Questiona-se: o que decidirá um reitor ilegítimo escolhido com a ajuda dos parceiros e parceiras que implementaram o atual golpe nos Centros? Diante desse cenário, será respeitada a vontade da comunidade, ou será mantida a política da cultura do favor ao grupo que o elegeu? As respostas saberemos em breve.
O fato é que não se quebra a essência da comunidade universitária, de ser a guardiã do pensamento livre e da democracia, sem consequências. Inclusive consequências não previstas, dos canalhas servis que fazem o jogo sujo e dos guardas de esquina. A UFS e o Brasil vivem um de seus momentos mais sombrios. Enquanto vivemos uma pandemia que se alastra pelo mundo e mata milhões, pessoas exercem seus podres poderes, sem limites, sem ética, sem solidariedade e muito menos sem respeito ao próximo.
Estamos atordoados, quase calados, vivendo no limite das nossas forças para defender o óbvio contra o obscurantismo. Sabemos que a democracia não foi e nunca será estabelecida sem luta. Tememos os déspotas e os guardas das esquinas, mas não nos curvamos. Vamos à luta! Somos maioria e sempre seremos intransigentes na defesa da democracia e da ética na UFS ou em qualquer lugar.
“Quando se abre a porteira para o Estado de Exceção, todos os demônios saem das trevas. Mas o problema também é o guarda da esquina” (Célio Turino em 2018, sobre a condução à delegacia de um senhor de 76 anos, dono do bar Bip Bip, no Rio de Janeiro, após uma homenagem à Marielle Franco).

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