Inflação para além dos alimentos aprofunda a crise econômica

Prévia aponta para o pior resultado para novembro em cinco anos, vai além dos alimentos e acende alerta para 2021. Todos os grupos pesquisados apresentaram elevação. Em 12 meses, a alta de preços acumulada é de 4,22%, já acima da meta do Banco Central, de 4%. Cai a confiança no setor de construções

Foto: Marcos Corrêa/PR

A prévia da inflação apresentou a maior variação para um mês de novembro desde 2015, quando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) ficou em 0,85%, informou na terça (24) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A taxa (0,81%) é 0,13 ponto percentual menor do que o registrado em outubro, quando o índice registrou alta de 0,94%.

De janeiro a novembro, o acumulado da inflação é de 3,13%, enquanto nos últimos 12 meses é de 4,22%, acima da meta de 4% estipulada pelo Banco Central (BC). O grupo alimentação e bebidas, com aumento de 2,16%, foi responsável por influenciar 0,44 ponto percentual do índice geral. No ano, o setor acumula alta de 12,12%. Os preços dos alimentos para consumo no domicílio foram destaque no mês, subindo 2,69%.

A maior influência sobre a alta no grupo foram itens importantes no consumo das famílias, como carnes (4,89%), arroz (8,29%), batata-inglesa (33,37%), tomate (19,89%) e óleo de soja (14,85%). A alimentação fora do domicílio acelerou 0,87%, puxada pelo item lanche (1,92%), enquanto refeição subiu 0,49%.

Mas todos os nove grupos de produtos e serviços pesquisados registraram aumentos de preços em novembro: transportes (1%), artigos de residência (1,40%), habitação (0,34%) e vestuário (0,96%), além de saúde e cuidados pessoais (0,04%), despesas pessoais (0,14%), comunicação (0,06%) e educação (0,01%). Todas as regiões pesquisadas pelo IBGE também registraram alta de preços, com destaque para Goiânia (1,26%), influenciada pela alta de 3,25% na gasolina.

No geral, o etanol aumentou 4,02%. A gasolina avançou 1,17%, um impacto individual de 0,06 ponto porcentual sobre a inflação. O óleo diesel ficou 0,53% mais caro, enquanto o gás veicular subiu 0,55%. O gasto com transportes teve elevação de 1% este mês, a segunda maior contribuição para a taxa do IPCA-15 de novembro, o equivalente a 0,20 ponto porcentual.

Além do choque de alimentos, o economista-chefe do Haitong Banco de Investimento, Flávio Serrano, lembra ao jornal ‘O Estado de S. Paulo’ que o IPCA-15 está mostrando recomposição de preços, após a deflação em meados do ano em vários itens devido ao isolamento social.

“Se não houvesse preocupação com o fiscal, as revisões não seriam tão fortes. Acho que tem muito do ambiente. As coisas estão acontecendo em conjunto, a persistência de choque de alimentos e piora fiscal, então é difícil separar os efeitos. Está sendo mais duradouro, mas ainda continua sendo choque de alimentos, para outros itens têm menor repasse. Temos de observar”, disse Serrano.

A economista-chefe do Banco Bocom BBM, Fernanda Guardado, pretende revisar a projeção de inflação de 2020 de 3,60% para perto de 3,70%. “Esse número (do IPCA-15) reforça as pressões que temos observado na inflação mais recentemente”, afirmou. “São surpresas que vêm da alimentação, vêm da gasolina, mas começam a aparecer nos serviços e não se limitam apenas a pressões tão temporárias.”

Alta surpreendeu o mercado

O IPCA-15 de novembro veio acima das estimativas de mercado, que projetava um resultado de 0,72%, e mostra que a inflação desacelerou menos do que o esperado após o pico registrado em outubro, quando o IPCA-15 alcançou 0,94%. Também aponta que a carestia está cada vez menos restrita aos alimentos.

“A alimentação não para de surpreender e houve um espalhamento maior da inflação”, observa o economista André Braz, coordenador do índice de preços da Fundação Getulio Vargas (FGV). Segundo ele, os alimentos continuam subindo por conta da alta do dólar e das exportações brasileiras, que aumentam o preço e reduzem a oferta de itens como soja, milho e arroz no mercado doméstico.

Com a moeda norte-americana em alta, também encarecem os insumos da indústria, que já começa a repassar os custos a produtos como móveis (2,40%), eletrodomésticos e equipamentos (2,23%) e roupas (0,84%). Além disso, a retomada de atividades que haviam sido reduzidas na quarentena também enseja uma recomposição de preços, como ocorreu nas passagens aéreas (3,46%).

O resultado faz o mercado rever novamente as projeções. A XP Investimentos, por exemplo, elevou de 3,6% para 3,9% a expectativa para o IPCA de 2020, pois acredita que a inflação oficial deve repetir os 0,86% de outubro em novembro e desacelerar somente para 0,80% em dezembro.

Braz também reviu suas projeções de 3,5% para 3,7%, pois não vê uma redução da pressão cambial no curto prazo e lembra que o fim de ano costuma ter aumentos nos preços de alimentos in natura. “O cenário piorou um pouco. Agora, o risco de ter um desafio maior com a inflação no ano que vem é mais alto”, observou.

O economista acredita que, se essa pressão inflacionária persistir no início de 2021, o BC pode ser forçado a elevar a taxa básica de juros (Selic) antes do que imaginava. Hoje, o mercado acredita que a Selic vai continuar na mínima histórica de 2% até o início do segundo semestre de 2021.

Desmonte e descaso cobram agora o seu preço
Desde 2019 o desgoverno Bolsonaro vem desmontando a estrutura de conselhos e câmaras de discussão, que reuniam representantes do governo e das empresas, e que poderiam operar neste momento para articular uma reação à alta dos custos. Nessas plenárias, poderiam ser buscadas alternativas dentro do próprio setor privado para acelerar a reconstrução de cadeias destroçadas pela crise, com apoio da rede de bancos públicos. Ou se negociar limites à exportação de bens e mercadorias, além da liberação pontual de importações nas áreas mais afetadas pela alta de custos, onde fosse possível.

No setor agrícola, não só foram abandonadas as políticas de formação de estoques reguladores, com o desmonte desses estoques, mas abriu-se mão de qualquer tipo de controle sobre as exportações. Movimento inverso ao de países do Leste Asiático, por exemplo, que adotaram políticas para preservar o abastecimento doméstico e segurar os preços cobrados dos consumidores.

Entre janeiro e a primeira quinzena de novembro, a alta dos preços do arroz, das carnes e do óleo de soja respondeu por quase 36,1% da inflação acumulada no período, na medição do IBGE. No período, o arroz subiu 64,30%, mas foi “batido” pelo salto de 89,6% nos preços do óleo de soja, enquanto as carnes, em conjunto, aumentaram em média 16,47%, sob liderança da carne de carne de porco, 31,12% mais cara.

Isoladamente, os preços da carne suína responderam por pouco mais de um quarto da “inflação das carnes” e por quase 3,7% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado naqueles 10 meses e meio. As exportações de carne suína, impulsionadas pela China, aumentaram 39,0%. Também apresentaram altas as vendas externas de algodão (31,5%) e de açúcar (72,8%).

A safra de soja brasileira foi recorde no ciclo 2019/20, somando 124,84 milhões de toneladas, praticamente 5,13 milhões de toneladas a mais do que no ano agrícola anterior (119,72 milhões de toneladas). Mas as exportações do grão saltaram 23,7% no acumulado dos primeiros 10 meses deste ano em relação a igual período de 2019, de 65,847 milhões para 81,432 milhões de toneladas – ou seja, um acréscimo de quase 15,6 milhões de toneladas.

A produção de arroz, que já superou 13,6 milhões de toneladas em 2011, havia recuado para 10,484 milhões de toneladas na safra 2018/19, mas avançou até 11,183 milhões de toneladas no ciclo seguinte. O problema foi que as exportações dispararam, diante do recuo das vendas nos maiores países produtores. O Brasil ocupou o espaço e elevou as exportações em quase 67,0%, de 790,2 mil para 1,319 milhão de toneladas.

Com o dólar mais alto, o boom de exportações de alimentos fez cair a oferta doméstica, estimulando produtores a acelerar o embarque da safra e ainda a reter parte da produção colhida diante da alta nos preços internos. Manobra especulativa que poderia ter sido desestimulada caso houvesse estoques para regular o mercado.

O “liberalismo” dos Chicago Boys do ministro-banqueiro da Economia, Paulo Guedes, conduz o país a um desastre, sem perspectiva de propostas que mudem o rumo do naufrágio. Agora, Guedes, que abriu mão de qualquer política de combate à inflação, dando aos mercados liberdade total para especular e aumentar preços, acena com a ameaça da hiperinflação para chantagear o Congresso a aprovar uma política de arrocho fiscal em plena crise econômica. Mais que uma escalada inflacionária, a real ameaça para o país são as pressões geradas pelos erros na condução da política econômica.

Cai a confiança do Setor da Construção

Quem ainda planeja comprar imóveis se depara com alta muito acima dos índices inflacionários. Divulgado nesta quarta (25) pela FGV, o Índice Nacional de Custo da Construção – M (INCC-M) registrou inflação de 1,29% em novembro deste ano, inferior ao 1,69% observado em outubro.

Principal índice usado para reajustar os financiamentos imobiliários, o INCC-M acumula taxas de inflação de 7,71% no ano e de 7,86% em 12 meses. Isso significa que quem comprou um apartamento na planta em novembro de 2019 teve o saldo devedor reajustado em quase 8% agora.

Quando o comprador financia um imóvel na planta, não apenas compra, mas também financia a construção desse empreendimento. Essa construção está sujeita à variação do custo dos materiais utilizados e, por isso, o INCC-M é usado para reajustar o saldo devedor durante essa fase.

Ao mesmo tempo, caiu o Índice de Confiança da Construção, também medido pela FGV. A queda foi de 1,4 ponto em novembro, na comparação com outubro. Foi a primeira queda do indicador, que apresentava altas desde maio e que chegou a 93,8 pontos, em uma escala de zero a 200.

“Após seis meses de alta contínua, a confiança dos empresários da construção recuou, refletindo uma piora das expectativas em relação à demanda e ao ambiente de negócios nos próximos meses. O movimento deu-se nos três segmentos setoriais – Edificações, Infraestrutura e Serviços Especializado – indicando a insegurança com as incertezas elevadas do cenário geral”, afirmou a pesquisadora da FGV Ana Maria Castelo.

A queda do indicador foi puxada pela confiança no futuro, medida pelo Índice de Expectativas, que caiu 2,9 pontos, passando para 96,2 e voltando a patamar inferior a fevereiro, período pré- pandemia (99 pontos).

Da Redação

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