Mentiras sobre covid de Trump e facada em Bolsonaro têm mesmo DNA

Foto: Kevin Lamarque/Reuters

Após o anúncio de que Donald Trump está com covid-19, houve uma onda de postagens em redes sociais nos Estados Unidos duvidando do diagnóstico. Apesar de o contexto ser outro, a situação lembra a descrença de parte dos brasileiros quanto ao atentado que Jair Bolsonaro sofreu na campanha eleitoral de 2018. Em ambos os casos, temos evidências sendo ignoradas em um contexto contaminado pela desinformação – contexto pelo qual ambos têm grande responsabilidade.

De acordo com The New York Times, as postagens sugeriam que Trump poderia ter inventado a história para atrasar a eleição, uma vez que está atrás nas pesquisas, ou para cancelar os próximos dois debates previstos com o democrata Joe Biden.

Contudo, como aponta a extensa cobertura da mídia, não há indícios de que a história seja uma farsa. Segundo a Casa Branca, o presidente está com sintomas leves, como febre e cansaço, e foi internado no Centro Médico Nacional Walter Reed, em Maryland, por precaução. A cloroquina – que tanto defendeu e chegou a tomar para evitar contrair o vírus – não figura entre os medicamentos que está recebendo.

Um dos motivos que levou uma parte dos norte-americanos a duvidar da doença de Trump, anunciada a um mês do dia das eleições, foi a quantidade de informações falsas e enganosas que ele mesmo espalhou sobre o vírus ao longo deste ano. Das intenções da China diante da pandemia, passando pelos ataques à OMS (Organização Mundial da Saúde) até a recomendação de injeção de desinfetante para tratamento da doença.

Ou seja, há um ambiente propício a teorias conspiratórias por conta do comportamento do próprio presidente. Levantamento da Universidade Cornell, que analisou 38 milhões de textos em inglês sobre a pandemia, aponta que ele foi o maior impulsionador de informações falsas e enganosas sobre o coronavírus. Menções a ele representam 38% do total.

Apesar das diferenças entre os dois contextos, é impossível não traçar um paralelo com a onda de ceticismo após o então candidato Jair Bolsonaro sofrer um abominável ataque durante ato de campanha em Juiz de Fora (MG) no dia 6 de setembro de 2018.

Por aqui, a onda de descrença nas redes sociais foi de grande magnitude. Levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas, que analisou 1.702.949 retuítes, entre 18h30 de 6 de setembro e 9h do dia seguinte, mostrou que 40,5% das interações no Twitter acusaram a facada de ser uma farsa e ironizaram as críticas da direita a uma suposta falta de empatia da esquerda.

Em um contexto em que as pessoas desejam respostas imediatas, teorias conspiratórias ganham força para preencher o vazio. Não que conspirações não existam, mas é surpreendente como os seres humanos desprezam o acaso como regente de determinados fatos históricos.

Mas parte do ceticismo também se deve ao histórico de mentiras contadas por Jair Bolsonaro até aquele momento. Por que acreditar que um acontecimento que claramente mudaria os rumos da campanha, gerando empatia junto à população e dando a ele a justificativa perfeita para ficar fora dos debates eleitorais, não foi planejado? – questionavam os adeptos dessa teoria da conspiração.

A culpa do atentado não é de Bolsonaro, mas parte da descrença sobre ele é sim consequência da percepção sobre sua credibilidade junto a uma parcela do eleitorado.

Como vem utilizando a mentira e teorias conspiratórias como instrumento de governo desde que assumiu, o que afetou, inclusive, o combate ao coronavírus em território nacional, essa credibilidade segue baixa. Na pesquisa Datafolha de agosto, 41% dos brasileiros disse nunca confiar no que ele diz, enquanto 22% sempre confiam. Mesmo entre os que o apoiam, 39% afirmou que às vezes confia nele, às vezes não.

Uma parte de seus opositores até hoje chama o episódio de “facada fake” por mais que isso seja um absurdo devido à profusão de provas e evidências de que o presidente sofreu um atentado. Aproveitam-se da baixa credibilidade para fazer disputa política.

Tanto no caso de Trump, quanto no de Bolsonaro, isso é também indício de algo mais preocupante. Em um contexto ultrapolarizado (que ambos, aliás, ajudaram a criar), em que cada um acredita naquilo que seu líder aponta como verdade, estamos parando de compartilhar uma percepção comum de realidade, deixando de acreditar em um pacote comum de fatos. Pacote que é premissa para a democracia e a vida em sociedade.

Por fim, desejo pronta recuperação ao presidente dos Estados Unidos e à primeira-dama. Infelizmente, ele foi profundamente negligente com sua própria vida, a de seus assessores, a das pessoas com quem interagiu e de milhões de norte-americanos ao adotar uma postura negacionista frente ao coronavírus. Destacar que ele ridicularizou quem se protegia contra a doença, como fez com seu adversário, Joe Biden por usar máscara, não é culpar a vítima neste momento de infortúnio, mas lembrar que ele tem responsabilidade pelo que aconteceu com ele e com os Estados Unidos.

Leonardo Sakamoto

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