Em Porto Alegre, entregadores de apps cobram melhores condições de trabalho: ‘muita coisa tem que mudar’

Breque dos Entregadores’ reúne dezenas de trabalhadores que reivindicam melhores condições de trabalho. Foto: Luiza Castro/Sul21

Dezenas de trabalhadores que atuam em aplicativos de entrega de alimentos participaram, na manhã desta quarta-feira (1º), de um ato, no Centro de Porto Alegre, para marcar o dia nacional de paralisação da categoria, chamado nas redes sociais de #BrequedosApps.

Na pauta da categoria, a reivindicação pelo aumento do valor pago pelos aplicativos por quilômetro rodado, aumento da tarifa mínima, fim dos sistema de pontuação e restrição de local, fim de bloqueios indevidos, oferta de seguro contra roubos, acidente e vida para os trabalhos e auxílio com equipamentos de proteção e licenças durante a pandemia.

“O que a gente tá reivindicando aqui é a questão da distância e o valor das teles. Tem tele que chega a 4 km de bicicleta que a Uber tá pagando R$ 3,50, o mínimo. Na chuva, frio, em época de pandemia, de covid-19, pagando R$ 3,50 para entregador de bicicleta. A gente não parou, tamo aí, tocando direto, enquanto tem teles aí bloqueando entregador sem dar justificativa, não dá um sinal, só simplesmente bloqueia e deu”, diz Renan Moraes Pires, 19 anos.

Renan Moraes Pires reclama dos bloqueios sem justificativas por parte dos aplicativos | Foto: Luiza Castro/Sul21

Renan pontua ainda que os entregadores não têm a opção de escolher as corridas que irão fazer, porque só recebem o itinerário depois de pegarem um pedido. “Subindo lomba, descendo lomba. A cada 15 dias a bicicleta tem que ir para manutenção também. Isso aí é complicado para nós também”, diz.

O #BrequeDosApps foi convocado para todo o território nacional nesta quarta, reunindo centenas de entregadores em São Paulo, onde contou com maior adesão. Em Porto Alegre, a concentração ocorreu na Praça da Alfândega, diante do Rua da Praia Shopping, por volta das 10h30. Por volta das 12h30, os participantes deixaram o local em comboio rumo ao bairro Moinhos de Vento.

Para Flávio Renan, 23 anos, há sete meses trabalhando com os três principais aplicativos em operação na Capital, há muitas práticas adotadas pelas empresas das quais os trabalhadores discordam. “Bloqueios indevidos, tarifas que às vezes não condizem. Na Uber, a tarifa é três, quatro pila, para fazer até cinco quilômetros, coisas que não têm como fazer. Basicamente, a gente tá fazendo essa movimentação para mudar muita coisa que tem que mudar”, diz.

Flávio Renan fala sobre as dificuldades enfrentadas pelos entregadores | Foto: Luiza Castro/Sul21

Flávio conta que trabalha todos os dias, fazendo entregas de almoço e janta, em rotinas que, muitas vezes, superaram 12, 13 horas de trabalho. Folga apenas em raras segundas-feiras. “Quando não tá o dinheiro legal para pagar o aluguel, aí tem que trabalhar todos os dias da semana”, diz. Ele questiona ainda o fato de os entregadores não terem qualquer amparo das empresas em casos de acidentes. “Tem colegas meus que se acidentaram e hoje em dia tão pedindo dinheiro nos grupos porque não têm nenhum auxílio”, diz.

Há dois meses fazendo entregas, Luana, 18 anos, explica que a situação para as mulheres é ainda pior. “Eu trabalhava no Banrisul, na agência central, aí meu contrato acabou e eu comecei a trampar com delivery. Eu pensei que era suava para mulher, só que eles dão prioridade para os homens. Quando os homens estão sem entrega, eles recebem uma mensagem da Rappi que tão com pouca demanda. A mulher recebe ‘necessidade de homem para o pedido’”, diz.

Luana reclama que aplicativos priorizam homens | Foto: Luiza Castro/Sul21

Ela pontua que, para as mulheres, os problemas começam pela sacola térmica que armazena os pedidos. “Se eles pensassem na mulher, eles mudariam a bag, porque ela fecha bem no peito e é impossível fechar, tu sente tudo. Tinha que ter uma bag feminina. Só que eles não pensam nisso, só pensam neles”, diz.

Desde que começou a trabalhar com entregas, Luana se mudou da Restinga para a Cidade Baixa, com o objetivo de estar mais perto do trabalho. “Eu me mudei para a Cidade Baixa, onde tem bastante pedido, teoricamente, mas eu fico horas esperando chamar e nada. Tu fica o dia todo esperando tocar e, quando toca, é bandinha de R$ 2. Tu tem que sair oito da manhã e voltar uma da manhã. Tipo, tu trabalha mais de doze horas por dia para receber uma mixaria, sendo que eles nem se importam”. “Eu trabalho para pagar o aluguel, basicamente”, conclui.

Por Sul 21

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